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Mil e um capítulos de histórias: Globoplay no ar

Francisco Malta

 

Resumo:

Este artigo analisa a telenovela no Brasil, tendo como recorte a Rede Globo de Televisão como líder absoluta de audiência e produtora de conteúdo, no qual se procura apresentar os principais pontos de transição desde o surgimento do folhetim literário, passando pela telenovela, a era transmídia e o aplicativo Globoplay, lançado pela emissora carioca com serviço de streaming. São elementos que se coadunam em busca de um único objetivo: contar uma história e chegar ao telespectador.


Palavras-Chave:

Palavras-Chave: Telenovela; Streaming; Globoplay.


Introdução

Quando se fala em telenovela no Brasil, muitos são a favor ou contra, mas o importante é que o público sempre comparece. Em relação à teledramaturgia, já são mais de sessenta anos de história, dentro dos quais cinquenta anos são de atuação em território nacional da Rede Globo de Televisão, emissora que sempre procurou levar ao telespectador o melhor no que tange à teledramaturgia. Em um momento histórico em que todas as emissoras do mundo viram-se diante do desafio de conquistar o telespectador com o artefato das novas mídias, a Rede Globo não fez diferente. Esse avanço trouxe o Globoplay, o canal streaming da TV Globo.

O canal de assinatura Globoplay foi lançado com o objetivo de angariar os telespectadores dentro da esfera digital e fidelizar o seu público que, por uma questão de horário, não pode acompanhar o capítulo da telenovela ou do seriado no momento de sua exibição. Com o canal por assinatura, o telespectador escolhe assistir na hora que quiser e como quiser: um único capítulo ou, no caso dos seriados, uma maratona, algo já comum entre o público brasileiro, vide os seguidores das séries americanas.

A pergunta que se pretende discutir no presente artigo é: como a tecnologia e a linguagem intervêm na forma de construir uma história? O que acontece com esse produto quando ele se transmidializa? A TV Globo é a maior produtora de conteúdo do Brasil e uma das maiores do mundo; sendo assim, não poderia manter-se indiferente a essas mudanças que já fazem parte do dia a dia dos brasileiros. Uma das razões para essa transformação é a queda anual da audiência e a preocupação em se aproximar de um público mais jovem e dinâmico que cresceu com as redes sociais e que não pretende seguir um padrão de TV instaurado na década de 1970. Propõe-se aqui uma discussão acerca do perfil da TV Globo como campeã de audiência, especialmente em telenovela – seu principal produto de exportação –, e das transformações que a emissora vem promovendo ao longo dos anos para atender as expectativas de seus fiéis consumidores de teledramaturgia.

A motivação para este trabalho deve-se ao fato de eu ser roteirista e estar atento a mudanças que visam atrair e fidelizar mais espectadores. Qual o melhor jeito de se contar uma história? Como chegamos ao telespectador? Hoje em dia, são muitas as questões que se apresentam a um roteirista no momento de sua criação, e as plataformas streaming não nos são indiferentes, visto que exigem do roteirista um grau de exigência de comunicação com a parte do público que não acompanha a novela ou o seriado no horário original de sua exibição e que precisa ser cativado para que possa interessar-se e se manter fiel ao produto até o fim da temporada.

Para o desenvolvimento deste trabalho, foi necessária a leitura de autores específicos desta área de estudo, tais como Frédéric Martel, com a obra Mainstream; Henry Jenkins, com Cultura da convergência; Martín Barbero, com Os exercícios do ver: hegemonia audiovisual e ficção televisiva; Maria Immacolata Vassalo de Lopes, pelo Observatório Ibero-Americano da ficção televisiva; e Marlyse Meyer, com Folhetim, uma história. Também procurei acompanhar reportagens e artigos que abordam essa estratégia da TV Globo para o lançamento do canal Globoplay.


Folhetim: do literário ao eletrônico

Para falar do universo da telenovela, é preciso, primeiramente, fazer um resgate da base que originou o modo de contar histórias de forma seriada – o folhetim. Marlyse Meyer (2005) pontua que o folhetim nasceu na França do século XIX pelas mãos de Émile Girardin. Segundo Meyer (2005, p. 31), “o passo decisivo é dado quando Girardin, utilizando o que já vinha sendo feito para os periódicos, decide publicar ficção em pedaços. Está criado o chamariz ‘continua no próximo número’”. Desde o início do século, havia o feuilleton, ou rodapé, destinado a assuntos mais leves. Essa ideia surgiu para ampliar o público e, consequentemente, o barateamento do jornal. Meyer afirma que “le feuilleton designa um lugar preciso do jornal: o rez-de-chaussée-rés do chão, rodapé, geralmente o da primeira página. Tinha uma finalidade precisa: era um espaço vazio destinado ao entretenimento” (p. 57). Diferentes escritos foram publicados até 1836, ano em que surgem os chamados “folhetins folhetinescos”, escritos por Balzac, com La vieille fille. A técnica “continua no próximo capítulo” apareceu apenas no final daquele ano.

Em 1837, surge uma série de folhetins populares. O jornal Le Siècle convidou Alexandre Dumas, que publica O capitão Paulo, em 1838. Para Meyer (2005, p. 61), “Dumas descobre o essencial da técnica de folhetim: mergulha o leitor in media res, diálogos vivos, personagens tipificados, e tem senso do corte de capítulo”. O sucesso de Dumas foi imediato, e o autor chegou a assinar um contrato de exclusividade para escrever 100 mil linhas por ano, a um franco e meio a linha, a fim de multiplicar as vendas do jornal (cf. MEYER, 2005). Tal prestígio alcançado pelo escritor equivale hoje ao de um autor de novela das 21 horas.

Não demorou para que o folhetim atravessasse os mares e chegasse ao Brasil. São muitos os elementos que herdamos dos folhetins e que vemos ainda hoje nas narrativas seriadas da televisão.


O folhetim no Brasil

Marlyse Meyer aponta que o folhetim já estava por aqui desde 1840. Segundo a autora (MEYER, 2005, p. 283), “em 1839 e 1842, os folhetins-romance são praticamente cotidianos no Jornal do Comércio, embora os autores ainda não sejam os mais modernos”. As histórias fragmentadas e interrompidas pela técnica do “continua amanhã” traziam alguns elementos do melodrama. Meyer lembra que:


O romance em fascículos se inscreve na linha “desgraça pouca é bobagem”, na qual “a virtude triunfa sempre”, da qual tivemos contundente exemplo com um folhetim do qual lancei mão frequentemente: O poder dos humildes, de Contreras. Nele e congêneres vão se encontrar coortes de honradas, virtuosas ricas e pobres órfãs virgens, esposas irmãs, adultérios involuntários, mulheres perdidas (por erro), estupros e seus hediondos efeitos, “tremendos incestos”, lágrimas e sofrimentos mil, redimidos pelo sofrimento de O mártir de Gólgota. Grande glória circense, obra popularíssima de Pérez Escrich. (MEYER, 2005, p. 323)


Como se percebe, os elementos que compunham os fascículos não eram muito diferentes dos mesmos que constituem a estrutura do capítulo de uma novela ou de um seriado nos dias atuais. A discussão acerca de gêneros e formatos para a televisão leva-nos ao questionamento da definição de um e de outro termo. Para Martín-Barbero (2008, p. 36), “os gêneros, antes de categorizarem narrativas, ocupam um lugar exterior à obra, a partir do qual o sentido da narrativa é produzido e consumido”. Sessenta anos depois das primeiras telenovelas, é possível afirmar que o folhetim eletrônico conquistou reconhecimento como produto artístico e cultural. Se para Barbero (2008) e Lopes (2005) os gêneros ocupam um lugar exterior à obra, para Maria Immacolata Lopes (2005), os formatos estão associados a uma ritualização da ação, que, engendrada tanto por técnicas ligadas aos modos de narrar quanto por fatores industriais e estratégias de comercialização, origina uma família de histórias.

A telenovela conseguiu expressar-se e construiu a sua história. As tramas brasileiras adquiriram, nesse processo, um estilo próprio, híbrido, colorido por diversos elementos da cultura nacional. Dotadas de uma linguagem ágil, as novelas contemplam temas do cotidiano, discutindo os hábitos, as aspirações e as frustrações presentes no dia adia das camadas médias, e disseminando padrões de comportamento. Uma das principais características de herança do romance-folhetim para a telenovela é a redundância, ou repetição: o reforço de uma dada história ou situação em cada capítulo para situar o telespectador que por ventura esteja acompanhando o episódio pela primeira vez. Barbero destaca a popularização do folhetim:


Faz-se indispensável propor a questão das matrizes culturais, pois só daí é pensável a mediação efetivada pelo melodrama entre o folclore das feiras e o espetáculo popular–urbano, quer dizer, massivo. Mediação que no plano das narrativas passa pelo folhetim e no dos espetáculos pelo music-hall e o cinema. Do cinema ao radioteatro, uma história dos modos de narrar e da encenação da cultura de massas é, em grande parte, uma história de melodrama. (BARBERO, 2009, p. 172)


As pontuações acima nos fazem observar que foram estes alguns dos elementos da gramática hollywoodiana transformada em linguagem universal e que, hoje em dia, a TV americana ainda aplica em seus seriados. Não à toa diz-se que os produtores vivem atualmente a “era de ouro” das séries.

A pesquisadora Maria Immacolata Lopes (2013) afirma que foi a partir do aumento da autonomia e da criatividade dos editores de jornais e revistas que o folhetim começou a ganhar relevância entre as publicações e a servir como grande atrativo para as vendas dos jornais, abrindo caminhos para novas modalidades de escrita do gênero: a ficcional e a serial. É importante ressaltar que, depois de publicados em jornal, os romances também saíam em volume. Visto como o primeiro produto da cultura popular, o folhetim suscitava a vontade do público de participar e colaborar para o desenvolvimento das tramas – um ponto em comum com as telenovelas. Seus leitores frequentemente enviavam cartas para as redações dos jornais, propondo desfechos, destinos de personagens e buscando saber detalhes das histórias. Nesse período, foi iniciada a era da “carta do leitor”, e o folhetim começou a ser moldado de acordo com os desejos do público, que desde sempre desejou identificar-se com os personagens e, simultaneamente, vê-los como uma realização de si próprios. Ou seja, antes mesmo da tecnologia, existia um espaço de interatividade com o público. Praticamente ao mesmo tempo, o fenômeno chega ao Brasil. Segundo Meyer (2005), os jornais brasileiros publicaram romances de grandes escritores, como Dostoievski, Machado de Assis e José Alencar, no formato de folhetim. Os autores franceses de obras folhetinescas, especialmente os que publicavam em jornais, também foram traduzidos e recebidos com êxito pelos leitores da elite brasileira. Com o avanço da tecnologia, alguns elementos usados no folhetim literário, como a carta anônima, deram espaço para a filmagem pelo celular, e-mails, vídeos que viralizam nas redes e uma vasta divulgação multimídia.


A telenovela no Brasil

Desde seu surgimento no cenário nacional, a telenovela obtém grande sucesso, que pode ser medido, em grande maioria, pela sua repercussão: dita modas, cria bordões e torna-se conversa de roda. Muitas etapas foram vencidas até que se chegasse à atual era transmídia.

No período de intensas transformações, a TV passou a acompanhar o espectador não somente em sua casa, mas também na rua, por meio dos aparelhos portáteis. Tal mudança ampliou o poder de alcance da televisão, seja pela mobilidade das telas de smartphones, seja pelo aumento das telas fixas aliadas à alta definição. A telenovela é uma obra aberta, e uma das características do gênero é a sua longa duração, na qual uma trama é narrada através de imagens, diálogos, ação, romance, intrigas e outros ingredientes do folhetim. De modo geral, é exibida no mesmo horário, tendo cada um dos horários uma proposta diferente para o público almejado. As histórias televisivas costumam ter de 150 a 220 capítulos. Por ser uma obra aberta, a escrita ocorre simultaneamente à sua produção, podendo o autor fazer ajustes na narrativa a fim de agradar ao público. A título de registro, os folhetins literários também atendiam a um formato e temáticas específicas. O romance Lucíola (1862), de José de Alencar, possui um tema forte e ousado para a época; hoje equivaleria a uma novela das 23 horas. Já Memórias de um Sargento de Milícias (1852), de Manuel Antônio de Almeida, por causa de seu humor e de sua crítica social, seria levado ao ar no horário das 19 horas.

O território da internet é livre na forma de alcançar a busca pelo telespectador, e, para isso, os grandes blocos de mídias são responsáveis por promover uma aproximação entre a televisão e o público. A própria TV Globo criou uma página no Facebook, uma fan page institucional, com chamadas imediatas dos seus programas. Essa é uma tentativa de estimular e lembrar ao espectador que o programa vai começar. Maria Immacolata Lopes (2013, p. 76), integrante do Observatório Ibero-americano de Ficção Televisiva (OBITEL), destaca que “nessa seção, são apresentadas informações parciais e imagens das cenas que ainda não foram exibidas, funcionando, desse modo, como um teaser do capítulo, buscando aumentar a curiosidade ou o suspense”.


A TV em trânsito

O canal de assinatura Globoplay foi lançado com objetivo de angariar telespectadores dentro da esfera digital e fidelizar o seu público que, por uma questão de horário, não pode acompanhar o capítulo da telenovela ou do seriado no momento de sua exibição original. Seguindo o protocolo das grandes empresas e estúdios, como Netflix e HBO, a TV Globo deu um passo à frente ao manter disponível para o telespectador a opção de assistir aos seus programas na hora em que preferir. Em 2016, a emissora optou por um avanço mais ousado. Suas séries ficam, desde então, disponíveis para os assinantes do Globoplay, que, assim como os assinantes da Netflix, têm a possibilidade de assistir antes dos demais. A título de exemplificação, tal fato ocorreu com três novos seriados: Justiça, Supermax e Nada será como antes,e ainda o spin-off da novela Haja Coração. Patricia Kogut[1], colunista do jornal O Globo e especialista em televisão, confirma em nota a resistência da própria emissora ao tomar essa decisão:


A iniciativa de lançar séries no Globoplay antes de elas chegarem à televisão já motivou discussões. Hoje é vista com bons olhos na Globo e não enfrenta muita resistência. A exemplo de Justiça e Supermax, Nada será como antes chegou na sexta ao aplicativo.


A era digital completa mundialmente 25 anos, e aqui no Brasil, 20 anos. Segundo fontes do PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), houve 95,4 milhões de acessos por pessoas acima de 10 anos. O instituto afirma ainda que 32,5 milhões de domicílios possuem microcomputador e 28,2 milhões contam com acesso à internet. Outro elemento é o smartphone, que já atinge 90% da população, ao passo que o Android operacional aparece com 78% em média. O Obitel expõe em sua pesquisa que a média de aplicativos por usuário é de 20, sendo seis deles utilizados semanalmente[2].

Assim que surgiu no cenário nacional, a TV Globo concorria timidamente com a extinta TV Tupi, até o momento em que passou a líder absoluta do mercado nacional. Não há como separar as nossas telenovelas do contexto histórico do país. A título de exemplificação, temos a novela Vale Tudo, assinada por Aguinaldo Silva e Gilberto Braga, em 1988, e Senhora do Destino, em 2004, também assinada por Aguinaldo Silva. Em um diálogo universal, surge O clone, de Glória Perez. Em 2012, com o avanço da classe C, surgem duas tramas que conquistaram o Brasil, dois grandes sucessos que em poucos dias tornaram-se fenômenos de audiência – Avenida Brasil e Cheias de charme. São duas obras que marcam o diálogo transmídia em suas narrativas.

O movimento de adequação às novas mídias deu-se de forma gradativa. Em 2009, a personagem Luciana, da novela Viver a vida, de Manoel Carlos, mantinha um blog interativo com o público, no qual o mesmo podia relatar em depoimentos histórias como a da personagem, que havia ficado tetraplégica. Com a novela Avenida Brasil e Cheias de Charme, a emissora decidiu avançar no cenário digital, buscando uma maior aproximação com o telespectador. Avenida Brasil é uma novela de João Emanuel Carneiro, escrita com a colaboração de Antonio Prata, Alessandro Marson, Luciana Pessanha, Márcia Prates e Thereza Falcão, com direção de Gustavo Fernandez, Thiago Teitelroit, Paulo Silvestrini, André Camara e Joana Jabace.

Avenida Brasil obteve liderança absoluta de audiência em todo Brasil e, a cada final de capítulo, a imagem dos protagonistas congelava-se. O sucesso nas redes sociais foi imediato, e a TV Globo liberou o aplicativo no site da novela para que cada telespectador pudesse fazer também a sua foto congelada no Facebook. Outro elemento recorrente na fan page eram as postagens com teasers do capítulo seguinte em formato de vídeo. O autor João Emanuel Carneiro procurou resgatar um trunfo conhecido do antigo folhetim – os ganchos. Eles consistem em provocar grande suspense ao final do capítulo, podendo ser uma revelação ou uma passagem emocionante, ao mesmo tempo que deixam um enigma no ar para que seja desvendado no próximo episódio.

A pesquisadora Maria Immacolata Lopes, do Obitel, destacou a forma como é medida a audiência das redes sociais:


O monitoramento na internet de conteúdos gerados pelos usuários (CGUs) vem adquirindo cada vez mais importância no Brasil, uma vez que a repercussão dos programas televisivos passa a ser 160 | Obitel 2016 medida através dos assuntos discutidos na internet e, por vezes, ganha até mais importância do que a própria medida de audiência. O Twitter tem se revelado, nos últimos anos, como a plataforma preferida dos fãs da ficção televisiva para conversar acerca de seus temas de interesse. O universo criativo concebido pelos fãs é permeado por fenômenos que vão ganhando força em diversas plataformas – com maior ou menor intensidade, conforme o panorama digital –, dentro do qual destacam-se memes, remixes, fanfics etc. Todos esses fenômenos resultam de práticas de fãs que se reúnem nas redes por meio de hashtags, cuja criação é uma das principais ferramentas encontrada por essas audiências para a discussão de assuntos de interesse e o compartilhamento de conteúdos na internet – de maneira que outros fãs possam se identificar através dessas palavras-chave. (LOPES, 2016, p. 159-60)


Há duas décadas, surgiram rumores em relação à morte da TV. David Brennan, pesquisador de mídias, descorda de tal profecia. Em entrevista ao programa Milênio, da Globonews, Brennan[3] afirma:


As pessoas estão assistindo mais televisão do que nunca e estão sendo influenciadas por ela mais do que em qualquer período anterior. E a ironia é que as próprias tecnologias que dariam o golpe de misericórdia na TV estão entre as responsáveis pela sua excelente saúde. A TV não está morrendo. Televisão é principalmente conteúdo que nós identificamos como TV. Eu chamo de entretenimento audiovisual de narrativa de formato longo.


Ainda de acordo com o pesquisador, o que se pode notar ao longo das modificações na televisão é que o folhetim eletrônico vem alcançando sucesso, o que importa sempre é manter a conexão com o seu público, em uma constante busca de novos ângulos e novas formas de contar uma história. Hoje, a tecnologia permite levar câmeras a lugares inéditos, onde se pode misturar coisas de maneiras originais. Além disso, há a opção de usar imagens geradas pelo computador para a explicação de um gráfico ou para a ilustração mais didática de uma informação.

Uma das preocupações da parte executiva da TV Globo era a de não perder o seu público. O Globoplay surgiu exatamente para garantir essa demanda. Em debate realizado no Festival de Cinema do Rio de Janeiro, dentro do evento Rio Market, Amauri Soares, diretor de programação da emissora, disse[4]:


A janela de exibição é o reflexo direto dos hábitos de consumo de uma época específica, ainda que um padrão de consumo não elimine o outro. É verdade que talvez você queira assistir a uma série de noite, depois da faculdade, sozinho; mas também é verdade que você vai querer assistir à final da Copa do Mundo ou ao capítulo final da novela com os seus amigos. O importante é entender que o consumidor é o referencial.


Para Erick Bretas, diretor de mídias digitais da TV Globo, também presente no evento, o poder associado ao consumidor oferece desafios:


É preciso garantir a sustentabilidade do sistema e o melhor ciclo de vida para cada produto, explorando as diferentes janelas. Entretanto, não pode haver a canibalização de uma janela pela outra. O mundo é outro. Agora, o consumidor tem muito mais poder, e a pressão é por ciclos cada vez mais curtos. O produtor, o programador ou a indústria não podem mais explorar apenas os modelos que lhe são mais favoráveis. É preciso haver um equilíbrio.


A busca de tal equilíbrio faz parte do universo de quem trabalha com a TV, pois, antes de tudo, televisão é sinônimo de expectativa e novidade. O público gosta de ser surpreendido, mas por causa de tão vastas as gamas de possibilidades da comunicação, é que se torna primordial o entendimento de quem está do outro lado da tela. David Bretnnan completa:


É irrelevante se sua programação é transmitida de forma linear ou on demand, vista em um aparelho de TV ou em um tablet ou smartphone, distribuída por ondas radiofônicas ou por cabo de fibra óptica. Ela ainda é vista, para a quase totalidade das pessoas, como televisão. E continuará sendo vista dessa forma.


Até o momento, a estratégia da emissora tem funcionado em resposta ao crescente consumo de video on demand no Brasil, e o número de assinantes tem aumentado.



Considerações finais

A TV é uma experiência compartilhada. As modificações nas formas de comunicação são inerentes à evolução da espécie. Contar uma história é fundamental à condição humana. No passado, as pessoas sentavam-se ao redor das fogueiras e contavam suas histórias, e tal atividade tornou-se parte fundamental de nossa cultura. Já foi decretado o fim do livro, do rádio, do cinema e da própria TV. A chegada da internet avançou rapidamente e alterou as formas de comunicação. Atentas a esse movimento, as emissoras foram em busca da aproximação com o seu público.

A criação do Globoplay justifica-se por ser a TV Globo uma emissora antenada aos acontecimentos, tendo percebido a tempo a grande necessidade de uma mudança nas regras do jogo. Hoje, o telespectador ganhou o poder da escolha e decide como deve assistir ao que quiser. Esse fato não ignora parte de uma programação que os jovens, por exemplo, gostam de assistir e compartilhar com amigos, programas como The Voice e reality shows.

No que tange à forma de interação da tecnologia, como a linguagem televisiva, o criador precisa ficar atento aos novos meios. Conforme exposto anteriormente, se antes havia o recurso da carta anônima no folhetim, hoje, os recursos são tecnológicos, como o vídeo feito pelo celular. Isso equivale a dizer que se codifica a forma da escrita, mas se coadunando com a realidade do seu tempo. No fundo, o que interessa é sempre uma boa história, seja em qual plataforma for.


Referências

ADORNO, Theodor W., HORKHEIMER, Max. A Indústria Cultural: o esclarecimento como mistificação das massas. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1986.


BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.


LOPES, Maria Immacolata Vassalo de. Estratégias de Transmidiação na Ficção Televisiva Brasileira. Org. Maria Immacolata Lopes. Porto Alegre: Sulina, 2013.


MACHADO, Arlindo. A Televisão levada à sério. São Paulo: SENAC, 2000.


MARTÍN-BARBERO, Jesús, REY, German. Os exercícios do ver: hegemonia audiovisual e ficção televisiva. São Paulo: Senac, 2001.


MEYER, Marlyse. Folhetim, uma história. (2ª ed.). São Paulo: Cia das Letras, 2005.


STAM, Robert. Bakhtin: da teoria literária à cultura de massa. São Paulo, Editora Ática, 2000.


INTERNET

AVENIDA BRASIL: Disponível em: http://gshow.globo.com/novelas/avenida-brasil/index.html. Acesso em 10/10/2016. (Acesso em: 31/10/2016)


BRENNAN, David. Entrevista programa Milênio- Globo News. Disponível em:


BRETAS, Erick. Entrevista site Filme B. Disponível em: http://www.filmeb.com.br/noticias/nacional-exibicao/no-riomarket-globo-discute-janelas-de-exibicao. (Acesso em: 02/11/2016)


CARNEIRO. João Emanuel. Disponível em: http://colunas.revistaepoca.globo.com/brunoastuto/2012/05/26/joao-emanuel-carneiro-nao-sou-de-turminhas-sobretudo-de-atores. (Acesso em 28/09/2016)


SOARES, Amauri. Entrevista site Filme B. Disponível em: http://www.filmeb.com.br/noticias/nacional-exibicao/no-riomarket-globo-discute-janelas-de-exibicao. (Acesso em: 02/11/2016)

[1] Disponível em: http://kogut.oglobo.globo.com/noticias-da-tv/coluna/noticia/2016/09/globo-planeja-exibir-nova-versao-de-os-trapalhoes-com-renato-aragao-aos-domingos.html. Último acesso em 26/09/2016. [2] Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD). Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/pesquisas/pesquisa_resultados.php?id_pesquisa=40. Último acesso em 27/10/2016. [3] BRENNAN, David: Milênio-Globonews. Disponível em: http://globosatplay.globo.com/globonews/v/5400547/. Último acesso em 31/10/2016. [4] Disponível em: http://www.filmeb.com.br/noticias/nacional-exibicao/no-riomarket-globo-discute-janelas-de-exibicao. Último acesso em 02/11/2016.


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